quarta-feira, 2 de junho de 2010

A FESTA DA ÁRVORE

Comemorações do CENTENÁRIO DA REPÚBLICA
A FESTA DA ÁRVORE
16 de Junho de 2010

Com a implantação da República a 5 de Outubro de 2010 um conjunto de novos valores e símbolos irromperam livremente na sociedade portuguesa. De entre eles, assumiu lugar relevante o culto da Árvore, ligado a valores centrais do Republicanismo como a fraternidade, a educação e o culto da Pátria.
O culto da Árvore possibilitou a realização de manifestação civico-pedagógicas – as Festas das Árvores – com conferências, plantações comemorativas, publicação de artigos, classificação e protecção de árvores notáveis.
As Festas das Árvores iniciaram-se ainda na fase final de Monarquia por iniciativa das organizações Republicanas, como a Liga Nacional de Instrução, que promoveu a primeira no Seixal, a 26 de Maio de 1907. A Liga pretendia a Festa fomentasse a “instrução nacional”, principalmente o ensino primário popular. Como este evento foi crismado pelo sucesso, a 19 de Dezembro do mesmo ano, a mesma Liga, com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa, levou a cabo festa idêntica que mobilizou as principais escolas da capital. Da região de Lisboa o espírito da Festa irradia para todo o país, sendo uma actividade recorrente no meio escolar.
A equipa das Comemorações da República, atendendo ao aspecto simbólico de que se reveste a Festa da Árvore, não só pelos valores e ideais transmitidos, mas num ano que também é o Ano Internacional da Biodiversidade, considerou que seria importante encerrar o ano lectivo de 2009/2010 com uma invocação contemporânea de uma manifestação cívica e pedagógica comum numa época em que a escola e a educação se constituíam como um dos pilares do pensamento e da acção republicana.
Sendo assim, a 16 de Junho de 2010, a partir das 13h30m,decorrerá na Escola Básica de Grão Vasco, a FESTA DA ÁRVORE que têm por objectivos:
1. Participar de uma forma dinâmica nas Comemorações do Centenário da República
2. Promover uma actividade que, para além de “recriar” uma manifestação genuinamente republicana, permite a reflexão sobre a defesa da biodiversidade vegetal.
3. Implicar activamente os vários actores da comunidade educativa: alunos, professores, pais e encarregados de educação, funcionários
4. Proporcionar aos alunos um roteiro republicano através do passeio por algumas ruas da cidade de Viseu
5. Homenagear a natureza em geral e a árvore particular com uma cerimónia em torno da Oliveira, a árvore do centenário.

Para a prossecução dos objectivos, serão desenvolvidas as seguintes actividades:
- Passeio pedestre por algumas ruas da cidade com toponímica republicana
- Visita à exposição de trabalhos dos alunos que tem por tema a Biodiversidade Vegetal
- Leitura de poemas e de textos em torno da árvore do Centenário – Oliveira
- Concerto musical
- Lanche convívio

A Equipa do Centenário está consciente que estes pequenos actos simples não só reavivam os ideais republicanos presentes nos gestos do quotidiano, mas também permitem a solidificação do sentido de pertença a uma comunidade concreta, neste caso, a da Escola Grão Vasco.

terça-feira, 16 de março de 2010

Portugal na Grande Guerra

Portugal na Grande Guerra
1914/1918
Cronologia

1914

5 de Agosto – Inglaterra reafirma a aliança com Portugal em caso de ataque alemão ao território português e pede a Lisboa para não proclamar a neutralidade 7 de Agosto – O Parlamento português autoriza o governo e intervir na Guerra.
18 de Agosto – Portugal mobiliza dois destacamentos para reforçar Angola e Moçambique
25 de Agosto – Forças alemãs saídas do Tanganica [colónia africana alemã] atacam o Posto de Mazina, no Norte de Moçambique.
27 de Agosto – Inglaterra compromete-se a defender as costas das colónias portuguesas em caso de ataque alemão.
10 e 12 de Setembro – Em Lisboa, embarque das primeiras tropas reúno a Angola [comandadas por Alves Roçadas] e Moçambique [comandadas por Massano de Amorim].
15 de Setembro – O representante da França em Lisboa pede a Portugal fornecimento de armamento.
10 de Outubro – Inglaterra convida Portugal a entrar na Guerra com canhões e homens
18 de Dezembro – No sul de Angola, os portugueses são obrigados a retirar de Naulila.


1915


27 de Janeiro – A Alemanha protesta contra a expulsão do seu cônsul em Luanda.
16 de Março – A Alemanha protesta junto do governo português pela captura de um navio alemão por um cruzador britânico nas águas de Moçambique.
5 de Maio – Berlim protesta por Portugal ter autorizado a passagem de forças inglesas por Moçambique.
25 de Maio – Berlim protesta por causa da expulsão do vice-cônsul alemão em Moçâmedes (Angola)


1916


17 de Fevereiro – Um memorando britânico pede que Portugal “requisite” navios alemães ancorados em portos nacionais.
24 de Fevereiro – Por decreto, Portugal “requisita” os navios alemães ancorados no estuário do Tejo.
25 de Fevereiro – Inglaterra agradece a Portugal a “requisição” dos navios alemães.
27 de Fevereiro – Alemanha protesta contra a “requisição” dos seus navios.
9 de Março – Alemanha declara guerra a Portugal.
10 de Março – O Ministro Plenipotenciário português, Sidónio Pais, abandona Berlim e o Ministro Plenipotenciário alemão, Von Rossen, deixa Lisboa.
11 de Março – Áustria declara guerra a Portugal.
27 de Março – Pela primeira vez Portugal participa numa reunião interaliada em Paris.
9 de Junho – Nova reunião interaliada em Paris.
22 de Julho – Em Tancos, acaba a instrução das tropas portuguesas mobilizadas para França.
1917
30 de Janeiro – Partida de Lisboa para França da primeira Brigada do Corpo Expedicionário Português [CEP] comandado pelo General Gomes da Costa.
17 de Junho – Na Flandres, as tropas portuguesas enfrentam a infantaria alemã.
8 de Outubro – O Presidente da República, Bernardino Machado, e o chefe do Governo, Afonso Costa, partem de Lisboa para um visita oficial a França e a Inglaterra.
13 de Outubro – Bernardino Machado vista o Quartel General do CEP na Flandres.
19 de Novembro – Afonso Costa participa em Paris numa conferência interaliada.
13 de Dezembro – Grande ataque da artilharia alemã ao sector da Frente Ocidental defendido pelos portugueses.
1918
9 de Abril – Batalha de La Lys. O sector da Frente Ocidental, guarnecido pelo CEP. Sofre um brutal ataque alemão. Morrem mais de 600 portugueses, 7000 são feitos prisioneiros, outros conseguem escapar juntando-se às unidades britânicas. A “derrota” portuguesa dá-se no dia em que os militares portugueses deveriam ser rendidos por soldados alemães.
22 de Maio – Unilateralmente, o comando britânico decidiu dispersar as tropas do CEP por divisões suas.
24 de Setembro – Primeira grande insubordinação das tropas portuguesas na frente de guerra.
22 de Maio – Unilateralmente, o comando britânico decidiu dispersar as tropas do CEP por divisões suas.
14 de Outubro – O caça minas “Augusto Castilho” trava combate com o submarino alemão U-139, acabando por ser afundado. Morreram o comandante Carvalho Araújo e alguns marinheiros.
19 de Outubro – É reprimida a tiro uma grande insubordinação das tropas portuguesas.
11 de Novembro – Fim da Primeira Guerra Mundial com a assinatura do Armistício.


Nota: Para a elaboração desta cronologia foi seguida a Cronologia da Grande Guerra 1914/1918, in Revista Visão História, nº 4, 2º edição [edição especial ], pág. 24/24

A GRANDE GUERRA

1ª Guerra Mundial
1914/1918

9 de Março de 1919 - Alemanha declara guerra a Portugal
11 de Março de 1919 – Áustria declara guerra a Portugal

segunda-feira, 8 de março de 2010

8 de Março de 1910/8 de Março de 2010

No Centenário da Comemoração do Dia Internacional da Mulher
8 de MARÇO
1910/2010


A 8 de Março de 1857, uma centena de mulheres operárias de Nova Iorque perderam a vida quando reivindicavam uma jornada de trabalho de 10 horas, a igualdade salarial e o direito à licença de maternidade.
Cerca de cinquenta anos mais tarde, em 1908, a mesma cidade americana testemunhava a marcha de mais de 15 000 mulheres clamando por melhores salários e pelo direito de viveram em melhores condições.
1908 e 1909 foram anos de manifestações e de greves das operárias um pouco por todo os Estados Unidos da América.
Na Conferência Internacional das Mulheres Socialistas, realizada em 1910, a alemã Clara Zethin (1857/1933), a principal teorizadora da “questão das mulheres” no movimento revolucionário alemão, propôs que o dia 8 de Março fosse eleito como o Dia Internacional da Mulher, em memória do martírio das mulheres operárias que, meio século antes, lutavam por melhores condições de vida.

Biografia de Adelaide Cabete

Adelaide de Jesus Damas Brasão, Cabete pelo casamento, nasceu em Elvas a 25 de Janeiro de 1867, no seio de uma família de trabalhadores rurais, ajudando a mãe nos trabalhos domésticos e na indústria caseira da secagem de ameixas. Quando, em 1885, casou com o sargento republicano e intelectual autodidacta, Manuel Ramos Fernandes Cabete, Adelaide não sabia ler nem escrever, começando a estudar aos 20 anos de idade. Incentivada pelo marido, em 1889 fez o exame da Instrução Primária, em 1894 acabou com distinção o curso dos Liceus para, no ano seguinte, realizar os exames de Física Superior, Química Orgânica e Química Mineral, necessários à entrada na Escola Politécnica. Em 1896 matriculou-se na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, formando-se em 1900, aos 33 anos, com a defesa da tese A protecção às mulheres grávidas como meio de promover o desenvolvimento físico das novas gerações.
Como médica, Adelaide Cabete norteou a sua actuação no apoio às mulheres grávidas, na divulgação dos cuidados materno-infantis, na melhoria das condições de vida das mulheres e das crianças, na defesa de um plano de cuidados básicos de saúde e no combate ao alcoolismo. Deste modo, para além das obras que publicou como Papel que o estudo da Puericultura, da Higiene Feminina deve desempenhar no Ensino Doméstico (1913), Protecção à Mulher Grávida e A Luta Anti-Alcoólica nas Escolas (1924), nas suas múltiplas intervenções Adelaide Cabete, para além de defender os direitos da mulher grávida, a protecção à mulher pobre, a educação das crianças, o combate ao alcoolismo e às doenças infecto-contagiosas, pugnava pela igualdade de direitos entre os dois sexos.
Para além de médica, Adelaide Cabete foi também professora de Higiene no Instituto Feminino de Odivelas e, como tal, alertou para o papel insubstituível desempenhado pelos educadores. Ao mesmo tempo que reclamava pelo ensino da puericultura e dos preceitos de higiene, reivindicava a construção de uma maternidade, concretizada posteriormente com a construção da Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa.
Mas Adelaide Cabete foi também uma das grandes figuras do feminismo republicano. Depois de ter sido iniciada na Loja Maçónica, Humanidades, em 1907, passando a usar o nome simbólico de Louise Michel, integrou a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, ao lado de Ana de Castro Osório e Fausta Pinto da Gama, tornando-se numa das principais responsáveis pela consolidação da Liga nos primeiros anos da sua existência. Porém, a sua intervenção social e educativa ganhou maior visibilidade a partir de 1914 no Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, de que foi a principal impulsionadora e presidente. Esta nova associação, que se reclamava apolítica e arreligiosa, tinha por objectivos “o melhoramento da situação legal da mulher na família e na sociedade; a abolição da regulamentação da prostituição; o melhoramento da Saúde Pública; a criação de gabinetes de consulta para profissões, educação e protecção a emigrantes sobretudo de mulheres e crianças; a protecção das crianças contra os maus tratos, trabalhos pesados e prostituição; a defesa da higiene da grávida e da puérpera.
[1]
Como resultado do seu trabalho e da sua militância em prol das mulheres e das crianças, Adelaide Cabete participou em vários congressos feministas internacionais onde divulgou a situação da mulher em Portugal. Assim, em Maio de 1913, no Congresso Internacional de Ocupação Doméstica, realizado em Gand, apresentou uma comunicação intitulada Papel que o estudo da puericultura, da higiene feminina, do ensino dos primeiros cuidados em caso de acidente e da pedagogia maternal deve desempenhar no ensino doméstico, tendo por base a sua experiência como professora no Instituto de Odivelas. Em Maio de 1923, representou Portugal no Congresso Feminista de Roma, promovido pela Aliança Internacional para o Sufrágio da Mulher, reivindicando o direito ao voto feminino, uma vez que as mulheres portuguesas já tinham obtido a Lei do Divórcio e o direito à investigação da paternidade e da família. Neste congresso foi também abordada a questão da educação sexual e da protecção da mulher e da criança face às doenças venéreas, propondo-se que a Educação Sexual fizesse parte dos programas de pedagogia das Escolas Normais. Em 1925, mais uma vez Adelaide Cabete representava Portugal em fóruns do feminismo internacional, agora em Washington, no Congresso Internacional das Mulheres. Aqui, continuando a pugnar pela necessidade e importância da educação moral e social, defendeu o direito da mulher aceder aos cargos de topo na hierarquia do ensino, bem como a criação de uma polícia feminina que se dedicasse especialmente à assistência moral, social e educativa da mulher e da criança.
Em Maio de 1924 foi responsável pela organização do I Congresso Feminista e de Educação, apresentado duas comunicações, Protecção à mulher grávida e à criança e A luta anti-alcoólica nas Escolas, onde voltava a reivindicar o repouso de um mês para as grávidas antes do parto, o criação de uma maternidade em Lisboa, de sanatórios para grávidas e de creches e asilos para a infância, bem como campanhas anti-alcoólicas nas escolas e liceus portugueses. No II Congresso Feminista, que decorreu já no período da Ditadura Militar, em 1928, Adelaide Cabete, na comunicação O Ensino da Puericultura na escola Infantil, defendeu a necessidade de transmitir conhecimentos básicos às crianças de tenra idade, pois muitas delas, provenientes das camadas mais desfavorecidas da sociedade, nunca chegariam às escolas elementares. O ensino da puericultura era um assunto muito caro a Adelaide Cabete, pois para além de anos antes, ter introduzido esta disciplina no Instituto Feminino de Educação e Trabalho, no ano lectivo 1924/1925 e na Universidade Popular Portuguesa, dirigira um curso para mães intitulado Higiene e puericultura.
Adelaide Cabete participou na organização do Primeiro Congresso Abolicionista Português, reafirmando as teses da inglesa Josefina Butler, da francesa Mme Avril de Saint-Croix e da uruguaia Palulini Luisi. Por ocasião do Segundo congresso, realizado em 1929, apresentou uma comunicação subordinada a um tema muito em voga na altura, A Eugénica e a eugenética. Por sua iniciativa, em 1928, é fundada a Associação das Mulheres Universitárias de Portugal e, neste mesmo ano, aderiu à campanha em prol das famílias dos presos, deportados e emigrados políticos, levada a cabo pelo jornal republicano O Rebate.
Os jornais e as revistas não estiveram distantes do seu universo de trabalho, uma vez que, entre 1920 e 1929, dirigiu a revista Alma Feminina, onde publicou numerosos artigos. Porém, subitamente, em 1929, acompanhada pelo sobrinho Arnaldo Brazão, abandonou Portugal partindo para Angola onde viveu até 1934. Nesta colónia portuguesa, Adelaide Cabete, para além de se dedicar à medicina, continuou a colaborar em jornais, defendendo a criação de maternidades e de beneficências, bem como a assistência à criança indígena.
Membro da Sociedade das Ciências Médicas, com consultório médico na baixa lisboeta, onde muitas vezes decorreram reuniões do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas e da Liga Portuguesa Abolicionista, Adelaide Cabete está também associada à implementação das Ligas da Bondade em Portugal, consideradas como um importante instrumento educativo das crianças, bem como aos movimentos em defesa da Paz Universal. O nome e a personalidade de Adelaide Cabete foram reconhecidos além fronteiras, tendo a espanhola Clara Campoamor, em 1928, feito o seu elogio nas páginas da imprensa daquele país.
Um ano depois de ter regressado a Lisboa, fechava os olhos a 19 de Setembro de 1935, aquela que em 1910, juntamente com outras duas companheiras, coseu e bordou a bandeira nacional hasteada na Rotunda, aquando da implantação da Republica. E se em 1912, Adelaide Cabete reivindicou o voto para as mulheres, em 1933 foi a primeira e única mulher a votar em Luanda a Constituição Portuguesa que enquadraria o período também designado por Estado Novo.
Nota: para a elaboração deste artigo, foi consultada a seguinte biografia
ESTEVES, João, Adelaide Cabete, in Dicionário de Educadores Portugueses, Edições Asa, 2003, pág.203/206
www.laicidade.pt
EDUARDO, Joaquim, Adelaide Cabete, uma professora feminista in www.aph.pt
[1] In ESTEVES, João, Dicionário dos Educadores Portugueses, pág. 204

Biografia de Carolina Beatriz Ângelo

Carolina Beatriz Ângelo era natural da cidade da Guarda onde nasceu em 1877, frequentou o Liceu e fez os preparatórios para admissão ao ensino superior. Em Lisboa matriculou-se Escola Politécnica e na Escola Médico-Cirúrgica, formando-se em Medicina em 1902, no mesmo ano em que casou com o primo Januário Barreto, como ela médico, e activista republicano. Pioneira na prática das intervenções cirúrgicas, foi a primeira médica portuguesa a operar no Hospital de S. José. Trabalhou também em Rilhafoles sob a orientação de Miguel Bombarda e, como Adelaide Cabete, acabou por dedicar-se à ginecologia, com consultório na Rua Nova do Almada, em Lisboa.
Em 1906, juntamente com outras quatro médicas – Adelaide Cabete, Domilia de Carvalho, Emília Patacho e Maria do Carmo Lopes – Carolina Beatriz Ângelo aderiu ao Comité Português da agremiação francesa La Paix et le Désarmement par les Femmes, sendo uma das vogais da direcção. No ano seguinte, em 1907, foi iniciada na Maçonaria, na Loja Humanidades, com o nome simbólico de Lígia. Assim, Carolina Beatriz Ângelo, com Ana de Castro Osório, Adelaide Cabete e Maria Veleda fez parte do quarteto que traçou o rumo do feminismo português, conquistando certa elite feminina para o campo republicano. Como as outras três feministas, Carolina Beatriz Ângelo fez parte do Grupo Português de Estudos Feministas (1907) e da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas que, fundada em Agosto de 1908, reivindicava direitos e deveres iguais para ambos os sexos. Porém, na sequência da radicalização ideológica no seio da Liga, abandona-a juntamente com Adelaide Cabete um ano depois. Ao mesmo tempo que militava nas fileiras do feminismo português, propagandeou o Registo Civil, evidenciando-se nas sessões que realizadas em Centros Escolares.
Como Venerável da Loja Humanidades, desenvolveu uma grande actividade, participando no I Congresso Nacional do Livre Pensamento, em Abril de 1908, fez parte da delegação que a 2 de Outubro de 1910 conferenciou com o Presidente da República do Brasil, assinou o convite para que as senhoras da sua loja maçónica comparecessem nos funerais nacionais de Miguel Bombarda e Cândido dos Reis e, juntamente com Adelaide Cabete, preparou as «irmãs» da Loja Humanidades para prestarem serviços de enfermagem aquando das ameaças monárquicas junto da fronteira portuguesa.
Como militante da Liga Republicana, Carolina Beatriz Ângelo, que pertencia aos seus corpos gerentes, empenhou-se na campanha a favor da discussão e aprovação da Lei do Divórcio na Parlamento, para além de ter colaborado com Adelaide Cabete na confecção da bandeira republicana que seria hasteada a 5 de Outubro.
Depois da implantação da República, Carolina Beatriz Ângelo viveu a sua militância de republicana e feminista a um ritmo de tal maneira alucinante, que faleceu de ataque cardíaco a 3 de Outubro de 1911, aos 33 anos de idade, depois de mais uma reunião nocturna na Associação de Propaganda Feminista, deixando órfã uma filha de 8 anos de idade.
Naquele primeiro ano da República, Carolina Beatriz Ângelo abraçará ferozmente a causa do sufragismo, consumindo muitas das suas forças, ao desenvolver, individual e colectivamente, uma intensa e continuada campanha para que as mulheres, ainda que uma minoria, tivessem direito ao voto. Assim, logo em Fevereiro de 1911, fez parte da delegação da Liga que entregou a Teófilo Braga a reivindicação do direito ao voto para a mulher economicamente independente. Com a publicação da primeira lei eleitoral e apesar de esta não contemplar expressamente o voto feminino, Carolina Beatriz Ângelo entreviu a hipótese de votar uma vez que, de acordo com a letra da lei, sabia ser e escrever e era chefe de família, pois era viúva desde o ano anterior, com uma filha menor a seu cargo.
Começava, então, a saga individual desta médica pelo direito ao seu voto. Assim, a 4 de Abril apresentou na Comissão de Recenseamento do 2º Bairro um requerimento solicitando a sua inclusão nos cadernos eleitorais, com a argumentação de que sendo “viúva, médica, residente em Lisboa (…), como cidadão português, nos termos dos artigos 18º e 20º do Código Civil, não excluída dos seus direitos públicos de eleitos por qualquer dos impedimentos taxativamente enumerados no artigo 6º do decreto com força de lei de 14 de Março de 1911, e estando antes compreendida em ambas as categorias de eleitoridade (….) porquanto não só sabe ler e escrever, mas é chefe de família, vivendo nessa qualidade com uma filha menor, a cujo sustento e educação prevê com o seu trabalho profissional, bem como aos demais encargos domésticos – pretende em tempo e para todos os efeitos legais que o seu nome seja incluído no novo recenseamento eleitoral (…)”
[1].
O requerimento seguiu para o Ministro do Interior de então, António José de Almeida, sendo-lhe negada a inclusão nos cadernos eleitorais. Mas, Carolina Beatriz Ângelo não desistiu, apresentando, a 24 de Abril, um recurso no Tribunal da Boa-Hora em que invocava quer a lei de 14 de Março de 1911, quer artigos do Código Civil, declarando que a sua exclusão dos cadernos eleitorais era “manifestamente ofensivo dos seus direitos políticos como cidadão português” para acrescentar “ a reclamante requereu a sua inserção no recenseamento em 4 de Abril, fundando o seu pedido na lei que evidentemente não exclui as mulheres do direito de voto. Nem outra foi até hoje a interpretação dada pelos legisladores à sua obra, não obstante haver sido publicado posteriormente um decreto que regulou de modo diverso as condições de impedimento do direito de votar, qual o de 6 de Abril deste mesmo ano. A reclamante tem capacidade eleitoral: sabe ler e escrever, é chefe de família, é cidadão português, Código Civil, artigos 18º e 20º. Pelo exposto mais pelo douto suprimento, deve a reclamante ser inscrita no recenseamento eleitoral pela freguesia do seu domicílio – em homenagem à Lei, à Democracia, à Equidade e à Justiça (…)”
[2]
A 28 de Abril, numa decisão histórica, João Baptista de Castro, o pai de Ana de Castro Osório, juiz da 1ª Vara Cível de Lisboa, dava provimento ao pedido da médica, mandando inclui-la nos cadernos eleitorais. Deste modo, Carolina Beatriz Ângelo, com o número 2513, pode votar para a Assembleia Nacional Constituinte em 28 de Maio de 1911, tornando-se na primeira mulher a exercer o direito de voto em Portugal e em qualquer país da Europa do Sul, acontecimento com repercussões internacionais, nomeadamente nos meios sufragistas estrangeiros.
Porém, insatisfeita com as orientações da Liga Republicana quanto ao voto feminino, uma vez que um sector importante liderado por Maria Veleda não o considerava como reivindicação prioritária, para além de discordar da sua atribuição a uma minoria feminina, bem como às intransigências quanto à liberdade religiosa dentro da Liga, Carolina Beatriz Ângelo demitiu-se da vice-presidência e em Maio de 1911, juntamente com Ana de Castro Osório, deram origem à Associação de Propaganda Feminista, considerava como a primeira organização sufragista portuguesa. Eleita Presidente foi ainda no seu consultório que se realizaram parte das reuniões, como aquela de 12 de Maio que marcou a fundação oficial da Associação.
Carolina Beatriz Ângelo foi uma mulher de pensamento ousado para a época, assumindo atitudes pioneiras como quando defendeu o alargamento do serviço militar obrigatório às mulheres, ainda que estas só devessem ocupar cargos na administração militar, serviços de ambulância, enfermagem e cozinha.
Apesar de pouco lembrada, Carolina Beatriz Ângelo, com um percurso feminista de apenas meia dúzia de anos, deve ter um lugar de destaque porquanto foi figura de proa em quatro organizações de mulheres, para além de, com o seu exemplo de coragem, perseverança e luta, ter conseguido que uma mulher votasse pela primeira vez em Portugal e na Europa do Sul. Daí que, se mais nada tivesse feito em prol da dignificação e dos direitos das mulheres, o que não foi o caso, Carolina Beatriz Ângelo tem um lugar marcado na História como a pioneira do voto feminino em Portugal.


Nota: para a elaboração deste artigo, foi consultada a seguinte biografia


ESTEVES, João, Carolina Beatriz Ângelo in Revista Faces de Eva, nº 11, em www.2fcsh.unl.pt/facesdeeva_arquivo/revista
LUCAS, Ana Glória, Carolina Beatriz Ângelo: ser cidadã de corpo inteiro in http://sexoforte.net

[1] Citado por João Esteves in Carolina Beatriz Ângelo, www.2fcsh.unl.pt/facesdeeva/eva_arquivo/revista 11



[2] Citado por João Esteves in Carolina Beatriz Ângelo, www.2fcsh.unl.pt/facesdeeva/eva_arquivo/revista 11