segunda-feira, 8 de março de 2010

Biografia de Carolina Beatriz Ângelo

Carolina Beatriz Ângelo era natural da cidade da Guarda onde nasceu em 1877, frequentou o Liceu e fez os preparatórios para admissão ao ensino superior. Em Lisboa matriculou-se Escola Politécnica e na Escola Médico-Cirúrgica, formando-se em Medicina em 1902, no mesmo ano em que casou com o primo Januário Barreto, como ela médico, e activista republicano. Pioneira na prática das intervenções cirúrgicas, foi a primeira médica portuguesa a operar no Hospital de S. José. Trabalhou também em Rilhafoles sob a orientação de Miguel Bombarda e, como Adelaide Cabete, acabou por dedicar-se à ginecologia, com consultório na Rua Nova do Almada, em Lisboa.
Em 1906, juntamente com outras quatro médicas – Adelaide Cabete, Domilia de Carvalho, Emília Patacho e Maria do Carmo Lopes – Carolina Beatriz Ângelo aderiu ao Comité Português da agremiação francesa La Paix et le Désarmement par les Femmes, sendo uma das vogais da direcção. No ano seguinte, em 1907, foi iniciada na Maçonaria, na Loja Humanidades, com o nome simbólico de Lígia. Assim, Carolina Beatriz Ângelo, com Ana de Castro Osório, Adelaide Cabete e Maria Veleda fez parte do quarteto que traçou o rumo do feminismo português, conquistando certa elite feminina para o campo republicano. Como as outras três feministas, Carolina Beatriz Ângelo fez parte do Grupo Português de Estudos Feministas (1907) e da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas que, fundada em Agosto de 1908, reivindicava direitos e deveres iguais para ambos os sexos. Porém, na sequência da radicalização ideológica no seio da Liga, abandona-a juntamente com Adelaide Cabete um ano depois. Ao mesmo tempo que militava nas fileiras do feminismo português, propagandeou o Registo Civil, evidenciando-se nas sessões que realizadas em Centros Escolares.
Como Venerável da Loja Humanidades, desenvolveu uma grande actividade, participando no I Congresso Nacional do Livre Pensamento, em Abril de 1908, fez parte da delegação que a 2 de Outubro de 1910 conferenciou com o Presidente da República do Brasil, assinou o convite para que as senhoras da sua loja maçónica comparecessem nos funerais nacionais de Miguel Bombarda e Cândido dos Reis e, juntamente com Adelaide Cabete, preparou as «irmãs» da Loja Humanidades para prestarem serviços de enfermagem aquando das ameaças monárquicas junto da fronteira portuguesa.
Como militante da Liga Republicana, Carolina Beatriz Ângelo, que pertencia aos seus corpos gerentes, empenhou-se na campanha a favor da discussão e aprovação da Lei do Divórcio na Parlamento, para além de ter colaborado com Adelaide Cabete na confecção da bandeira republicana que seria hasteada a 5 de Outubro.
Depois da implantação da República, Carolina Beatriz Ângelo viveu a sua militância de republicana e feminista a um ritmo de tal maneira alucinante, que faleceu de ataque cardíaco a 3 de Outubro de 1911, aos 33 anos de idade, depois de mais uma reunião nocturna na Associação de Propaganda Feminista, deixando órfã uma filha de 8 anos de idade.
Naquele primeiro ano da República, Carolina Beatriz Ângelo abraçará ferozmente a causa do sufragismo, consumindo muitas das suas forças, ao desenvolver, individual e colectivamente, uma intensa e continuada campanha para que as mulheres, ainda que uma minoria, tivessem direito ao voto. Assim, logo em Fevereiro de 1911, fez parte da delegação da Liga que entregou a Teófilo Braga a reivindicação do direito ao voto para a mulher economicamente independente. Com a publicação da primeira lei eleitoral e apesar de esta não contemplar expressamente o voto feminino, Carolina Beatriz Ângelo entreviu a hipótese de votar uma vez que, de acordo com a letra da lei, sabia ser e escrever e era chefe de família, pois era viúva desde o ano anterior, com uma filha menor a seu cargo.
Começava, então, a saga individual desta médica pelo direito ao seu voto. Assim, a 4 de Abril apresentou na Comissão de Recenseamento do 2º Bairro um requerimento solicitando a sua inclusão nos cadernos eleitorais, com a argumentação de que sendo “viúva, médica, residente em Lisboa (…), como cidadão português, nos termos dos artigos 18º e 20º do Código Civil, não excluída dos seus direitos públicos de eleitos por qualquer dos impedimentos taxativamente enumerados no artigo 6º do decreto com força de lei de 14 de Março de 1911, e estando antes compreendida em ambas as categorias de eleitoridade (….) porquanto não só sabe ler e escrever, mas é chefe de família, vivendo nessa qualidade com uma filha menor, a cujo sustento e educação prevê com o seu trabalho profissional, bem como aos demais encargos domésticos – pretende em tempo e para todos os efeitos legais que o seu nome seja incluído no novo recenseamento eleitoral (…)”
[1].
O requerimento seguiu para o Ministro do Interior de então, António José de Almeida, sendo-lhe negada a inclusão nos cadernos eleitorais. Mas, Carolina Beatriz Ângelo não desistiu, apresentando, a 24 de Abril, um recurso no Tribunal da Boa-Hora em que invocava quer a lei de 14 de Março de 1911, quer artigos do Código Civil, declarando que a sua exclusão dos cadernos eleitorais era “manifestamente ofensivo dos seus direitos políticos como cidadão português” para acrescentar “ a reclamante requereu a sua inserção no recenseamento em 4 de Abril, fundando o seu pedido na lei que evidentemente não exclui as mulheres do direito de voto. Nem outra foi até hoje a interpretação dada pelos legisladores à sua obra, não obstante haver sido publicado posteriormente um decreto que regulou de modo diverso as condições de impedimento do direito de votar, qual o de 6 de Abril deste mesmo ano. A reclamante tem capacidade eleitoral: sabe ler e escrever, é chefe de família, é cidadão português, Código Civil, artigos 18º e 20º. Pelo exposto mais pelo douto suprimento, deve a reclamante ser inscrita no recenseamento eleitoral pela freguesia do seu domicílio – em homenagem à Lei, à Democracia, à Equidade e à Justiça (…)”
[2]
A 28 de Abril, numa decisão histórica, João Baptista de Castro, o pai de Ana de Castro Osório, juiz da 1ª Vara Cível de Lisboa, dava provimento ao pedido da médica, mandando inclui-la nos cadernos eleitorais. Deste modo, Carolina Beatriz Ângelo, com o número 2513, pode votar para a Assembleia Nacional Constituinte em 28 de Maio de 1911, tornando-se na primeira mulher a exercer o direito de voto em Portugal e em qualquer país da Europa do Sul, acontecimento com repercussões internacionais, nomeadamente nos meios sufragistas estrangeiros.
Porém, insatisfeita com as orientações da Liga Republicana quanto ao voto feminino, uma vez que um sector importante liderado por Maria Veleda não o considerava como reivindicação prioritária, para além de discordar da sua atribuição a uma minoria feminina, bem como às intransigências quanto à liberdade religiosa dentro da Liga, Carolina Beatriz Ângelo demitiu-se da vice-presidência e em Maio de 1911, juntamente com Ana de Castro Osório, deram origem à Associação de Propaganda Feminista, considerava como a primeira organização sufragista portuguesa. Eleita Presidente foi ainda no seu consultório que se realizaram parte das reuniões, como aquela de 12 de Maio que marcou a fundação oficial da Associação.
Carolina Beatriz Ângelo foi uma mulher de pensamento ousado para a época, assumindo atitudes pioneiras como quando defendeu o alargamento do serviço militar obrigatório às mulheres, ainda que estas só devessem ocupar cargos na administração militar, serviços de ambulância, enfermagem e cozinha.
Apesar de pouco lembrada, Carolina Beatriz Ângelo, com um percurso feminista de apenas meia dúzia de anos, deve ter um lugar de destaque porquanto foi figura de proa em quatro organizações de mulheres, para além de, com o seu exemplo de coragem, perseverança e luta, ter conseguido que uma mulher votasse pela primeira vez em Portugal e na Europa do Sul. Daí que, se mais nada tivesse feito em prol da dignificação e dos direitos das mulheres, o que não foi o caso, Carolina Beatriz Ângelo tem um lugar marcado na História como a pioneira do voto feminino em Portugal.


Nota: para a elaboração deste artigo, foi consultada a seguinte biografia


ESTEVES, João, Carolina Beatriz Ângelo in Revista Faces de Eva, nº 11, em www.2fcsh.unl.pt/facesdeeva_arquivo/revista
LUCAS, Ana Glória, Carolina Beatriz Ângelo: ser cidadã de corpo inteiro in http://sexoforte.net

[1] Citado por João Esteves in Carolina Beatriz Ângelo, www.2fcsh.unl.pt/facesdeeva/eva_arquivo/revista 11



[2] Citado por João Esteves in Carolina Beatriz Ângelo, www.2fcsh.unl.pt/facesdeeva/eva_arquivo/revista 11

sexta-feira, 5 de março de 2010

Biografia de Ana de Castro Osorio

Ana de Castro Osório, filha do juiz João Baptista de Castro e de Mariana Osório de Castro Cabral de Albuquerque, nasceu em Mangualde a 18 de Junho de 1872 num ambiente culturalmente privilegiado. Após uma infância e adolescência passada na sua terra natal, foi em Setúbal, para onde se muda com a família em 1895, que iniciou a sua carreira literária e política. Em 1898 casou com Francisco Paulino Gomes de Oliveira, poeta, jornalista, editor e activista republicano.
Sem nunca ter frequentado o ensino formal, Ana de Castro Osório cedo se lançou na edição de uma Colecção Para Crianças (Abril de 1897), actividade que a iria tornar nacional e internacionalmente conhecida. Com esta colecção, pretendeu criar uma literatura infantil de inspiração portuguesa, com contos próprios para aquela faixa etária. Assim, a Biblioteca Infantil Ilustrada obteve logo no ano da sua edição o Grande Diploma de Honra na Exposição da Imprensa. Desta biblioteca foram publicados 18 volumes contendo histórias populares portuguesas, narrativas doutrinárias e educativas, contos originais, peças de teatro, poesia. Como escritora, para além de ter feito recolha oral de contos tradicionais um pouco por todo o país, traduziu contos de escritores internacionais como os irmãos Grimm, C. Perrault, H. C. Andersen, Rosália Hoch, A. Stein, Ireida Schuette. Fez incursões pelo teatro infantil ao publicar obras como A comédia de Lili. Foi autora de livros destinados ao ensino primário geral e ensino primário superior, concorrendo ao concurso aberto em 1920 para escolha de manuais escolares com O Livrinho Encantador, Os Nossos Amigos, Lendo e Aprendendo, Viagens Aventurosas de Felício e Felizarda e A Minha Pátria. Na memória justificativa com que se apresentou ao referido concurso, explicava que não “se constrói uma sociedade, nem se reforma uma Pátria se as crianças não forem desde os primeiros anos dirigidas, instruídas e disciplinadas para um alto fim de grandeza e idealismo superior da Pátria a que pertencem (…)”
[1]
Desde muito cedo Ana de Castro Osório enveredou pelo jornalismo, não só publicando muitos artigos que abordavam temas ligados às crianças, às mulheres e à defesa da pátria, mas também dirigindo periódicos como Sociedade Futura (1902), O Jornal dos Pequeninos (1907-1908), A Mulher e a Criança (1909-1910), A Semeadora (1915-1918). Desempenhou ainda um papel relevante no jornal setubalense O Radical (1910-1911).
Em 1907, Ana de Castro Osório filiou-se na Loja Maçónica Humanidades, adoptando como nome simbólico Leonor da Fonseca Pimentel. Feminista empenhada defendeu pela pena e pela acção a educação e instrução das crianças e das mulheres, a independência económica feminina, a igualdade de direitos entre os dois sexos, o acesso da mulher a diversas profissões, o sufrágio feminino restrito, a igualdade de direitos entre os cônjuges, a lei do divórcio e o direito «a salário igual para trabalho igual». Politicamente comprometida, republicana convicta, Ana de Castro Osório considerava que o papel da mulher não podia continuar a resumir-se ao de mãe e esposa, pelo que, para conseguir romper com as dependências tradicionais, a mulher deveria ser economicamente independente, o que implicava uma educação e instrução adequadas e em pé de igualdade com a educação ministrada ao sexo masculino. Os poderes públicos deveriam, portanto, dar uma atenção redobrada à educação feminina pois eram as mulheres as principais educadoras e formadoras das crianças.
Como feminista empenhada, Ana de Castro Osório começou por dirigir, em 1907, o Grupo Português de Estudos Feministas, uma associação feminista ligada ao Partido Republicano Português. A partir de 1908, organiza e dirige a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, constituída unicamente por elementos femininos, que chegando a ter centenas de militantes, tinha por objectivos “orientar, educar e instruir, nos princípios democráticos a mulher portuguesa; fazer propaganda cívica, inspirando-se no ideal republicano e democrático; promover a revisão de leis na parte que interessa especialmente à mulher e à criança; criar escolas infantis, escolas de serviço doméstico, maternidades, casas de trabalho, asilos-escolas e tudo quanto seja próprio para proteger e educar a criança e levantar a mulher da situação deprimente em que está a sociedade portuguesa”
[2]
Ana de Castro Osório considerava a República, não como o regime ideal, mas como aquele que poderia trazer nova esperança para o país, sobretudo nos planos social, educativo e moral. Assim, apoiou a Lei do Divórcio e as Leis da Família, da autoria de Afonso Costa e publicadas durante o primeiro governo provisório republicano, empenhando-se na edificação de um ensino e de uma educação laicos, modernos e racionais, opondo-se ferozmente ao ensino congregacionista que considerava fútil.
Quando as posições na Liga Republicana das Mulheres Portuguesas se radicalizaram, e as ideias de Ana de Castro Osório colidem, nomeadamente as que se referem ao voto feminino, com as ideias mais radicais e revolucionárias para a época, preconizadas por Maria Veleda, aquela abandonou a presidência da Liga. Em 1911 acompanhou o marido ao Brasil que fora nomeado cônsul em S. Paulo. Antes de partir, fundou com Carolina Beatriz Ângelo a Associação de Propaganda Feminista, a primeira organização sufragista portuguesa. A nova Associação não teve qualquer ligação partidária, devendo a sua existência ao prosseguimento de dois objectivos: reivindicação do voto feminino e análise dos problemas específicos das mulheres. Ao propor-se continuar com a análise dos problemas específicos das mulheres, a Associação, por intermédio da sua fundadora, defendeu a criação de escolas profissionais como a Escola Doméstica para formação de «professoras particulares» e «criadas» e Escolas Agrícolas Femininas. Ainda por iniciativa de Ana de Castro Osório, a Associação veio a filiar-se na Internacional Womem Suffrage Aliance.
Em 1916, retornada do Brasil, foi nomeada subinspectora do trabalho da 1ª Circunscrição Industrial do Ministério do Trabalho, sendo este o único lugar de Estado que exerceu. O seu trabalho em prol das crianças mais necessitadas tornou-se bem evidente no apoio que deu à Obra Maternal, criada no âmbito da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas por Maria Veleda. Mais tarde, procurou lanças as Ligas de Bondade, através do Grémio Carolina Ângelo, que procuravam afastar as crianças da delinquência e da criminalidade. Ana de Castro Osório advogou a criação de creches para filhos das mulheres operárias. Com o deflagrar da 1ª Guerra Mundial, fundou a associação Pela Pátria, com o fito de trabalhar junto das famílias e dos soldados mobilizados e em 1916 participa na organização da Cruzada das Mulheres Portuguesas.
Ana de Castro Osório que esteve, desde o primeiro momento, com os defensores da entrada de Portugal no primeiro grande conflito mundial do século XX ao lado de países como a França, a Inglaterra e a Bélgica, passou a escrever quase em exclusivo, sobre a defesa da Pátria, que considerava a grande questão nacional. Contudo, vai-se desiludindo com a República, pois esta não lhe atribuiu nenhum papel relacionado com a instrução, com a demora na abertura de concurso para a provação dos novos manuais escolares e pela aposentação forçada de seu pai.
Politicamente, se em 1915, Ana de Castro Osório criticou abertamente a ditadura de Pimenta de Castro, em 1918 afastou-se do Sidonismo, por considerar que Sidónio traira a Pátria ao governar o país com a ajuda daqueles que não quiserem partir para a guerra. Colaborou, em 1919, na difusão do Manifesto Nacionalista de que eram co-autores os seus dois filhos. Três anos depois, na sequência da prisão dos filhos envolvidos no movimento nacionalista de 8 de Junho, passou a defender um regime presidencialista, que pusesse cobro ao estado em que o país se encontrava. Ana de Castro Osório desiludira-se com a República, que apelidara de incompetentes, uma vez que o povo continuava, como na Monarquia, sem instrução e assistência. Na década de 20, a escritora e feminista deixava-se tocar pela onde de Nacionalismo que submergia Portugal, continuando, contudo, racionalista e defensora da liberdade de raciocínio e “incapaz de ter uma religião formalista e dogmática”
[3]
A 23 de Março de 1935, com 62 anos de idade, Ana de Castro Osório morria em Lisboa. O seu funeral foi acompanhado por personalidades bem diferenciadas como Fernanda de Castro e Maria Veleda, Regina Quintanilha, João de Barros, António Sérgio, Rodrigues Miguéis, Aquilino Ribeiro, Hernâni Cidade.

Nota: para a elaboração deste artigo, foi consultada a seguinte biografia ESTEVES, João, Maria Veleda, in Dicionário de Educadores Portugueses, Edições Asa, 2003, pág.1019 a 1025

[1] Citado por João Esteves, Ana de Castro Osório, in Dicionário de Educadores Portugueses, pág. 1022
[2] Citado por João Esteves, Ana de Castro Osório, in Dicionário de Educadores Portugueses, pág. 1023/1024
[3] Citado por João Esteves, Ana de Castro Osório, in Dicionário de Educadores Portugueses, pág. 1025

segunda-feira, 1 de março de 2010

Tertúlia "Mulheres"


Figuras Femininas da República

Maria Carolina Frederico Crispim, conhecida pelo pseudónimo de Maria Veleda, nasceu em Faro a 26 de Fevereiro de 1871. Ficando órfã com a idade de onze anos, começou a trabalhar muito cedo, dando explicações. Como professora do «magistério primário particular» leccionou em Faro, Bucelas, Ferreira do Alentejo e Serpa. Como professora «régia interina», deu aulas em Odivelas do Alentejo e, a partir de 1905, em Lisboa onde fixou residência. Na capital começou por ser professora num asilo de onde se transferiu para um colégio na Baixa. Mais tarde aceitou o lugar de «professora regente» no Centro Escolar Republicano Afonso Costa, localizado na Calçada de Arroios, iniciando aí a sua formação republicana. Em 1909 dirigia já a escola do Centro Republicano da Ajuda.
Maria Veleda compatibilizava o seu trabalho docente com o de colaboradora em jornais e revistas. A partir dos dezanove anos passou a escrever em periódicos, tendo textos seus publicados no Diário Ilustrado, República, Heraldo Tradição, Ave Azul, O Repórter e Sociedade Futura. Foi redactora nos jornais A Vanguarda, O Século e A Pátria. Depois de 1910, teve a seu cargo a secção «Missa Democrática», do jornal A Vanguarda, com uma função moral e educativa segundo os padrões republicanos.
Foi ainda durante a Monarquia que Maria Veleda aderiu ao republicanismo. Conviveu com os seus principais dirigentes, participou activamente em comícios, manifestações, palestras e acções de propaganda política, onde ganhou notoriedade enquanto oradora das questões sociais e das causas dos mais fracos. Algumas das suas intervenções foram dadas à estampa, com o título A Conquista prefaciado por António José de Almeida. Em 1909 foi condenada por abuso de liberdade de imprensa pelas críticas violentíssimas que teceu à Rainha D. Amélia no artigo «Carta aberta a uma dama franquista» publicado no jornal A Vanguarda.
Como outras dirigentes feministas do seu tempo, em 1907 foi iniciada na Maçonaria, na Loja Humanidade, escolhendo como nome simbólico Angústias. Integrou a comissão organizadora do Primeiro Congresso de Livre Pensamento e em 1911 participou no Congresso do Partido Republicano Português, aderindo posteriormente ao Partido Democrático de Afonso Costa, de quem se sentia muito próxima.
Com um discurso muito político, Maria Veleda preocupou-se com a situação miserável do proletariado e das repercussões da miséria nos seus agregados familiares, não descurando, contudo, a causa da emancipação da mulher. Como educadora procurou fundar escolas maternais e incentivou a criação de cursos nocturnos para as mulheres poderem aprender a ler, como aconteceu com os Centros Escolares Afonso Costa e António José de Almeida que ela própria dirigiu. Como feminista, defendeu a educação da mulher que, começando na Escola Maternal, deveria dotá-la com uma cultura intelectual, física e moral em tudo semelhante à do homem. Para estar de acordo com estas ideias, Maria Veleda atacou vigorosamente a falta de uma política de educação para as raparigas, a quem era ministrado um ensino fundamentalmente teórico, de onde estavam arredadas as componentes manual e física. Olhando à sua volta, criticou também a falta de condições materiais e higiénicas da maior parte dos edifícios escolares.
Militante da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas desde a sua fundação, em 1908, e uma das principais dirigentes, Maria Veleda sua presidente durante o triénio 1913/1915, tendo a seu cargo a direcção das duas publicações, a revista A mulher e a criança e o jornal A Madrugada.


1ª página da revista A Mulher e a Criança

Na Liga, Maria Veleda foi a principal impulsionadora da Obra Maternal, que tinha por objectivo proteger e educar as crianças vítimas de abandono e de maus tratos, procurando assim minorar o alastramento da mendicidade infantil nas ruas de Lisboa. De facto, as mulheres da Liga consideravam e defendiam que uma das obrigações da República seria precisamente a protecção das crianças. Pelo papel destacado na Obra Maternal, Maria Veleda foi nomeada, em 1912, delegada de vigilância da Tutoria Central da Infância de Lisboa, passando, em 1918, para ajudante de secretário daquela Instituição, cargo que manteve até à sua aposentação em 1941.
Apesar de ter sido educada catolicamente, Maria Veleda foi profundamente anti-clerical e anti-religiosa. Assumindo-se como livre pensadora, considerava os padres e a religião como os maiores inimigos da República, da Pátria, da ciência, da razão e do progresso humano. As suas posições extremadas, não só do ponto de vista religioso como ideológico, uma vez que nunca foi sufragista, defendendo o voto universal, fizeram-na entrar em colisão com Ana de Castro Osório que abandonou a Liga para fundar a Associação de Propaganda Feminista. Em 1913 Maria Veleda representou a Liga no XVII Congresso Internacional do Livre Pensamento.
Se em 1915 esteve contra a Ditadura de Pimenta de Castro, um ano mais tarde foi uma das indefectíveis apoiantes da participação de Portugal na Grande Guerra, participando em conferências e sessões públicas um pouco por todo o país. Em finais de 1915, juntamente com outras sócias, abandonou a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas bem como a direcção do jornal A Madrugada, para vir a fundar a efémera Associação Feminina de Propaganda Democrática.
Na década de 20, desiludida com o rumo que a República tomava, Maria Veleda desinteressou-se pela intervenção pública activa, tornando-se jornalista dos jornais Século e A Pátria de Luanda, onde continuou a defender os ideais feministas e republicanos. Morreu em Lisboa, a 8 de Março de 1955, cinco anos depois de ter publicado no jornal República, entre Fevereiro e Abril de 1950, as suas Memórias.
Se Maria Veleda não teve a mesma projecção das outras dirigentes feministas do seu tempo, pode dever-se ao facto de ter sido considerada como uma revolucionária, uma radical, com ideias demasiadamente extremistas para o seu tempo. Porém, pelo seu percurso multifacetado, pela sua intervenção pública, pela sua militância política e feminista, Maria Veleda será uma personalidade a desvendar.
Dois apontamentos de Maria Veleda sobre o feminismo e o direito ao voto por parte das mulheres:
Sobre o feminismo:
Chamam-nos embora “feministas”, com um certo ar de desdém, os que ainda não querem confessar a influência decisiva da mulher sobre determinadas questões (…). O nosso feminismo não é feito de pretensões ridículas nem de reivindicações injustas. Nós não somos as mulheres que abandonam o lar, passam o dia nas igrejas, fazendo novenas, esbagoando rosários; mas as mulheres metódicas – profissionais ou não – que tendo cumprido o dever que o nosso cargo nos impõe, em vez de andarmos num corrupio de loja de modas ou na bisbilhotice das visitas, lemos páginas que nos instruem, estudamos a sociedade e procuramos dar ao homem o nosso apoio para a conquista do ideal comum – que é a liberdade colectiva”.
Sobre o direito ao voto
Se se reconhece à mulher o direito ao voto, é uma incoerência reclamá-lo só para aqueles que tenham um curso ou possam ser consideradas intelectuais. Se a mulher tem direito ao voto, deve tê-lo em igualdade de circunstância com o homem; - e nesse sentido, nos declaramos já “sufragistas”… embora essa atitude brigue com o nosso Ideal – pois queremos defender a mulher do povo contra todas as aristocráticas – a aristocracia do diploma, a aristocracia do talento, a aristocracia do dinheiro”


Nota: para a elaboração deste artigo, foi consultada a seguinte biografia ESTEVES, João, Maria Veleda, in Dicionário de Educadores Portugueses, Edições Asa, 2003, pág.1421/1424
MONTEIRO, Natividade, Maria Veleda in sítio da Associação dos Professores de História,
http://www.aph.pt/
RODRIGUES, Joaquim Manuel Vieira, Maria Veleda, uma farense desconhecida, VELEDAArtigo.pdf.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Trabalho da aluna Cláudia Fernandes

A MINHA FAMILIA MATERNA NO SÉCULO 19

Os meus tretavôs maternos Júlio e Rosa Grego, viviam em Sintra e tinham um restaurante e uma pensão na Praia das Maçãs.
Foram dos primeiros edificadores da Praia das Maçãs.
Esta e uma cópia de um postal e do fim do século 19. Nele estão os meus tetravôs com a minha trisavó Bina ao colo.
O jornal Correio de Sintra, em 2 de Abril de 1899 noticiava:
“O Sr. Júlio, laborioso e activo proprietário de novo restaurante Flor da Praia das Maças, dotou-o de novos melhoramentos – uns frescos e aprazíveis terraços, abrigo para carros de gado, asseio e boa cozinha”
Foi neste restaurante que se serviu o primeiro banquete que houve na Praia das Maças, em homenagem ao Visconde de Tojal.

O interior da esplanada debruçada sobre a praia foi motivo de uma tela de o pintor José Malhoa. Hoje está no Museu do Chiado, em Lisboa.
Os meus tetravôs eram pessoas influentes na altura, chagaram a privar com o Rei D. Carlos, que era cliente habitual e grande apreciador das especialidades da casa, sendo algumas delas:
“Amêijoas a Bolhão Pato”,”Mexilhões de cebolada”,e”Peixe assado no forno”.
Ainda hoje a minha bisavó faz esses cozinhados, ensinou a minha avo e a minha mãe, eu aprecio especialmente o Peixe Assado no forno, ando a tentar aprender mas ela diz-me sempre que e um segredo de família só posso aprender quando for mais velha.
Os meus tetravôs também eram convidados para algumas festas que o rei D. Carlos dava no palácio da Vila em Sintra.


Esta fotografia foi tirada quando foram a um baile a convite do Rei.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010


A Revista Alma Nacional, concebida e fundada por António José de Almeida, foi dada à estampa a 10 de Fevereiro de 1910. Foram editados 39n números, o último dos quais publicado a 29 de Setembro, uma semana antes da queda do regime monárquico.
Esta revista de combate pelo ideário republicano, inscrevia na capa esta inspirada citação de Danton “Depois do pão, a educação é a principal necessidade do povo”.
No editorial do primeiro número, pode ler-se uma evocação ao 31 de Janeiro de 1891, quando o editorialista escreve: "31 de Janeiro e esse fadário errante e vagabundo em que ela anda agora, correndo montes e vales, à espera da encarnação revolucionária que lhe vase, num molde histórico, a essência eterna, imortal”
Ora, Ela – a República – estaria para breve e viria com a chegada do Outono de 1910.
Nota: Todos os números da revista Alma Nacional podem ser consultados online a partir do sítio da Fundação Mário Soares.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Ainda sobre o 31 de Janeiro de 1891

DUAS NOTAS

Sobre o Capitão Leitão, permito-me transcrever extractos de um artigo do Dr. Henrique Almeida, com o título Viseu e o Centenário da República – a primeira revolta republicana, publicado do Jornal do Centro, de 29 de Janeiro de 2010.
Os relatos da época de, entre outros, Basílio Teles (Do Ultimatum ao 31 de Janeiro) e de João Chagas (História da Revolta do Porto) dão conta da intervenção, na primeira linha dos acontecimentos, do Capitão António Amaral Leitão, natural de Farminhão. Considerado o chefe militar da revolta, este oficial do Regimento de Infantaria do Porto, então com 44 anos, (…) tornou-se um dos principais rostos do movimento precursor (…).
Entre nós, a acção do militar viseense está assinalado na toponímica local. No início dos anos 90, o executivo camarário prestou homenagem ao capitão Leitão, ao atribui o seu nome a uma rua perpendicular à Rua Alexandre Herculano. A ladear o muro ocidental da Escola Grão Vasco, cruza com aquela a Rua 31 de Janeiro, articulando-se os topónimos. (…)
Uma segunda nota para apresentar a leitura que o historiador Rui Ramos faz do 31 de Janeiro. Para tal, servi-me do artigo que publicou na revista Única, editada com o jornal Expresso, no passado dia 30 de Janeiro.


Conclui então este historiador:
A direcção do PRP [Partido Republicano Português], em Lisboa, distanciou-se da revolta, condenando-a como “inoportuna, insensata e perigosa”. Durante a tarde de 31 de Janeiro, no Chiado, um dos membros do directório, o professor Teófilo Braga, depois Presidente da República, dizia a quem o queria ouvir que o 31 de Janeiro tinha sido feito com “dinheirinho da polícia”.
Os governos não procederam a grandes repressões. Só houve suspensão de garantias no Porto, durante um mês. Os 500 revoltosos capturados, quase todos militares, foram julgados em barcos de guerra ancorados em Leixões (…). Foram condenados pelo crime de rebelião, 3 oficiais, 23 sargentos, 49 cabos e 163 soldados. Ficaram à espera dos perdões que não faltaram: dois anos depois, todos, menos os três oficiais, tinham sido amnistiados (….). O regime ganhou vinte anos. (…) Meses depois da revolta, o Rei visitou o Porto em apoteose. Ninguém então teria previsto que o 31 de Janeiro viesse alguma vez a ser comemorado. Mas a história só se torna previsível retrospectivamente.