segunda-feira, 1 de março de 2010

Figuras Femininas da República

Maria Carolina Frederico Crispim, conhecida pelo pseudónimo de Maria Veleda, nasceu em Faro a 26 de Fevereiro de 1871. Ficando órfã com a idade de onze anos, começou a trabalhar muito cedo, dando explicações. Como professora do «magistério primário particular» leccionou em Faro, Bucelas, Ferreira do Alentejo e Serpa. Como professora «régia interina», deu aulas em Odivelas do Alentejo e, a partir de 1905, em Lisboa onde fixou residência. Na capital começou por ser professora num asilo de onde se transferiu para um colégio na Baixa. Mais tarde aceitou o lugar de «professora regente» no Centro Escolar Republicano Afonso Costa, localizado na Calçada de Arroios, iniciando aí a sua formação republicana. Em 1909 dirigia já a escola do Centro Republicano da Ajuda.
Maria Veleda compatibilizava o seu trabalho docente com o de colaboradora em jornais e revistas. A partir dos dezanove anos passou a escrever em periódicos, tendo textos seus publicados no Diário Ilustrado, República, Heraldo Tradição, Ave Azul, O Repórter e Sociedade Futura. Foi redactora nos jornais A Vanguarda, O Século e A Pátria. Depois de 1910, teve a seu cargo a secção «Missa Democrática», do jornal A Vanguarda, com uma função moral e educativa segundo os padrões republicanos.
Foi ainda durante a Monarquia que Maria Veleda aderiu ao republicanismo. Conviveu com os seus principais dirigentes, participou activamente em comícios, manifestações, palestras e acções de propaganda política, onde ganhou notoriedade enquanto oradora das questões sociais e das causas dos mais fracos. Algumas das suas intervenções foram dadas à estampa, com o título A Conquista prefaciado por António José de Almeida. Em 1909 foi condenada por abuso de liberdade de imprensa pelas críticas violentíssimas que teceu à Rainha D. Amélia no artigo «Carta aberta a uma dama franquista» publicado no jornal A Vanguarda.
Como outras dirigentes feministas do seu tempo, em 1907 foi iniciada na Maçonaria, na Loja Humanidade, escolhendo como nome simbólico Angústias. Integrou a comissão organizadora do Primeiro Congresso de Livre Pensamento e em 1911 participou no Congresso do Partido Republicano Português, aderindo posteriormente ao Partido Democrático de Afonso Costa, de quem se sentia muito próxima.
Com um discurso muito político, Maria Veleda preocupou-se com a situação miserável do proletariado e das repercussões da miséria nos seus agregados familiares, não descurando, contudo, a causa da emancipação da mulher. Como educadora procurou fundar escolas maternais e incentivou a criação de cursos nocturnos para as mulheres poderem aprender a ler, como aconteceu com os Centros Escolares Afonso Costa e António José de Almeida que ela própria dirigiu. Como feminista, defendeu a educação da mulher que, começando na Escola Maternal, deveria dotá-la com uma cultura intelectual, física e moral em tudo semelhante à do homem. Para estar de acordo com estas ideias, Maria Veleda atacou vigorosamente a falta de uma política de educação para as raparigas, a quem era ministrado um ensino fundamentalmente teórico, de onde estavam arredadas as componentes manual e física. Olhando à sua volta, criticou também a falta de condições materiais e higiénicas da maior parte dos edifícios escolares.
Militante da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas desde a sua fundação, em 1908, e uma das principais dirigentes, Maria Veleda sua presidente durante o triénio 1913/1915, tendo a seu cargo a direcção das duas publicações, a revista A mulher e a criança e o jornal A Madrugada.


1ª página da revista A Mulher e a Criança

Na Liga, Maria Veleda foi a principal impulsionadora da Obra Maternal, que tinha por objectivo proteger e educar as crianças vítimas de abandono e de maus tratos, procurando assim minorar o alastramento da mendicidade infantil nas ruas de Lisboa. De facto, as mulheres da Liga consideravam e defendiam que uma das obrigações da República seria precisamente a protecção das crianças. Pelo papel destacado na Obra Maternal, Maria Veleda foi nomeada, em 1912, delegada de vigilância da Tutoria Central da Infância de Lisboa, passando, em 1918, para ajudante de secretário daquela Instituição, cargo que manteve até à sua aposentação em 1941.
Apesar de ter sido educada catolicamente, Maria Veleda foi profundamente anti-clerical e anti-religiosa. Assumindo-se como livre pensadora, considerava os padres e a religião como os maiores inimigos da República, da Pátria, da ciência, da razão e do progresso humano. As suas posições extremadas, não só do ponto de vista religioso como ideológico, uma vez que nunca foi sufragista, defendendo o voto universal, fizeram-na entrar em colisão com Ana de Castro Osório que abandonou a Liga para fundar a Associação de Propaganda Feminista. Em 1913 Maria Veleda representou a Liga no XVII Congresso Internacional do Livre Pensamento.
Se em 1915 esteve contra a Ditadura de Pimenta de Castro, um ano mais tarde foi uma das indefectíveis apoiantes da participação de Portugal na Grande Guerra, participando em conferências e sessões públicas um pouco por todo o país. Em finais de 1915, juntamente com outras sócias, abandonou a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas bem como a direcção do jornal A Madrugada, para vir a fundar a efémera Associação Feminina de Propaganda Democrática.
Na década de 20, desiludida com o rumo que a República tomava, Maria Veleda desinteressou-se pela intervenção pública activa, tornando-se jornalista dos jornais Século e A Pátria de Luanda, onde continuou a defender os ideais feministas e republicanos. Morreu em Lisboa, a 8 de Março de 1955, cinco anos depois de ter publicado no jornal República, entre Fevereiro e Abril de 1950, as suas Memórias.
Se Maria Veleda não teve a mesma projecção das outras dirigentes feministas do seu tempo, pode dever-se ao facto de ter sido considerada como uma revolucionária, uma radical, com ideias demasiadamente extremistas para o seu tempo. Porém, pelo seu percurso multifacetado, pela sua intervenção pública, pela sua militância política e feminista, Maria Veleda será uma personalidade a desvendar.
Dois apontamentos de Maria Veleda sobre o feminismo e o direito ao voto por parte das mulheres:
Sobre o feminismo:
Chamam-nos embora “feministas”, com um certo ar de desdém, os que ainda não querem confessar a influência decisiva da mulher sobre determinadas questões (…). O nosso feminismo não é feito de pretensões ridículas nem de reivindicações injustas. Nós não somos as mulheres que abandonam o lar, passam o dia nas igrejas, fazendo novenas, esbagoando rosários; mas as mulheres metódicas – profissionais ou não – que tendo cumprido o dever que o nosso cargo nos impõe, em vez de andarmos num corrupio de loja de modas ou na bisbilhotice das visitas, lemos páginas que nos instruem, estudamos a sociedade e procuramos dar ao homem o nosso apoio para a conquista do ideal comum – que é a liberdade colectiva”.
Sobre o direito ao voto
Se se reconhece à mulher o direito ao voto, é uma incoerência reclamá-lo só para aqueles que tenham um curso ou possam ser consideradas intelectuais. Se a mulher tem direito ao voto, deve tê-lo em igualdade de circunstância com o homem; - e nesse sentido, nos declaramos já “sufragistas”… embora essa atitude brigue com o nosso Ideal – pois queremos defender a mulher do povo contra todas as aristocráticas – a aristocracia do diploma, a aristocracia do talento, a aristocracia do dinheiro”


Nota: para a elaboração deste artigo, foi consultada a seguinte biografia ESTEVES, João, Maria Veleda, in Dicionário de Educadores Portugueses, Edições Asa, 2003, pág.1421/1424
MONTEIRO, Natividade, Maria Veleda in sítio da Associação dos Professores de História,
http://www.aph.pt/
RODRIGUES, Joaquim Manuel Vieira, Maria Veleda, uma farense desconhecida, VELEDAArtigo.pdf.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Trabalho da aluna Cláudia Fernandes

A MINHA FAMILIA MATERNA NO SÉCULO 19

Os meus tretavôs maternos Júlio e Rosa Grego, viviam em Sintra e tinham um restaurante e uma pensão na Praia das Maçãs.
Foram dos primeiros edificadores da Praia das Maçãs.
Esta e uma cópia de um postal e do fim do século 19. Nele estão os meus tetravôs com a minha trisavó Bina ao colo.
O jornal Correio de Sintra, em 2 de Abril de 1899 noticiava:
“O Sr. Júlio, laborioso e activo proprietário de novo restaurante Flor da Praia das Maças, dotou-o de novos melhoramentos – uns frescos e aprazíveis terraços, abrigo para carros de gado, asseio e boa cozinha”
Foi neste restaurante que se serviu o primeiro banquete que houve na Praia das Maças, em homenagem ao Visconde de Tojal.

O interior da esplanada debruçada sobre a praia foi motivo de uma tela de o pintor José Malhoa. Hoje está no Museu do Chiado, em Lisboa.
Os meus tetravôs eram pessoas influentes na altura, chagaram a privar com o Rei D. Carlos, que era cliente habitual e grande apreciador das especialidades da casa, sendo algumas delas:
“Amêijoas a Bolhão Pato”,”Mexilhões de cebolada”,e”Peixe assado no forno”.
Ainda hoje a minha bisavó faz esses cozinhados, ensinou a minha avo e a minha mãe, eu aprecio especialmente o Peixe Assado no forno, ando a tentar aprender mas ela diz-me sempre que e um segredo de família só posso aprender quando for mais velha.
Os meus tetravôs também eram convidados para algumas festas que o rei D. Carlos dava no palácio da Vila em Sintra.


Esta fotografia foi tirada quando foram a um baile a convite do Rei.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010


A Revista Alma Nacional, concebida e fundada por António José de Almeida, foi dada à estampa a 10 de Fevereiro de 1910. Foram editados 39n números, o último dos quais publicado a 29 de Setembro, uma semana antes da queda do regime monárquico.
Esta revista de combate pelo ideário republicano, inscrevia na capa esta inspirada citação de Danton “Depois do pão, a educação é a principal necessidade do povo”.
No editorial do primeiro número, pode ler-se uma evocação ao 31 de Janeiro de 1891, quando o editorialista escreve: "31 de Janeiro e esse fadário errante e vagabundo em que ela anda agora, correndo montes e vales, à espera da encarnação revolucionária que lhe vase, num molde histórico, a essência eterna, imortal”
Ora, Ela – a República – estaria para breve e viria com a chegada do Outono de 1910.
Nota: Todos os números da revista Alma Nacional podem ser consultados online a partir do sítio da Fundação Mário Soares.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Ainda sobre o 31 de Janeiro de 1891

DUAS NOTAS

Sobre o Capitão Leitão, permito-me transcrever extractos de um artigo do Dr. Henrique Almeida, com o título Viseu e o Centenário da República – a primeira revolta republicana, publicado do Jornal do Centro, de 29 de Janeiro de 2010.
Os relatos da época de, entre outros, Basílio Teles (Do Ultimatum ao 31 de Janeiro) e de João Chagas (História da Revolta do Porto) dão conta da intervenção, na primeira linha dos acontecimentos, do Capitão António Amaral Leitão, natural de Farminhão. Considerado o chefe militar da revolta, este oficial do Regimento de Infantaria do Porto, então com 44 anos, (…) tornou-se um dos principais rostos do movimento precursor (…).
Entre nós, a acção do militar viseense está assinalado na toponímica local. No início dos anos 90, o executivo camarário prestou homenagem ao capitão Leitão, ao atribui o seu nome a uma rua perpendicular à Rua Alexandre Herculano. A ladear o muro ocidental da Escola Grão Vasco, cruza com aquela a Rua 31 de Janeiro, articulando-se os topónimos. (…)
Uma segunda nota para apresentar a leitura que o historiador Rui Ramos faz do 31 de Janeiro. Para tal, servi-me do artigo que publicou na revista Única, editada com o jornal Expresso, no passado dia 30 de Janeiro.


Conclui então este historiador:
A direcção do PRP [Partido Republicano Português], em Lisboa, distanciou-se da revolta, condenando-a como “inoportuna, insensata e perigosa”. Durante a tarde de 31 de Janeiro, no Chiado, um dos membros do directório, o professor Teófilo Braga, depois Presidente da República, dizia a quem o queria ouvir que o 31 de Janeiro tinha sido feito com “dinheirinho da polícia”.
Os governos não procederam a grandes repressões. Só houve suspensão de garantias no Porto, durante um mês. Os 500 revoltosos capturados, quase todos militares, foram julgados em barcos de guerra ancorados em Leixões (…). Foram condenados pelo crime de rebelião, 3 oficiais, 23 sargentos, 49 cabos e 163 soldados. Ficaram à espera dos perdões que não faltaram: dois anos depois, todos, menos os três oficiais, tinham sido amnistiados (….). O regime ganhou vinte anos. (…) Meses depois da revolta, o Rei visitou o Porto em apoteose. Ninguém então teria previsto que o 31 de Janeiro viesse alguma vez a ser comemorado. Mas a história só se torna previsível retrospectivamente.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Regicídio - 1 de Fevereiro de 1908

Das memórias da Marquesa de Rio Maior
Amanheceu lindo o dia 1 de Fevereiro
[Os Reis, acompanhados do Príncipe herdeiro D. Luís Filipe, chegavam nessa tarde a Lisboa regressados de Vila Viçosa]
Quando chegámos ao cais já o sol ia baixo (…). Na sala de espera estavam muitas Damas, No cais, o ministério e numerosos dignitários conversando com o Infante D. Manuel.
Aproximei-me do meu sobrinho Aires de Ornelas, ministro da Marinha, e disse-lhe:
-Por toda a parte se fala em bombas contra os ministros e a Família Real por causa de hoje se ter decretado a suspensão das garantias. Vê lá se mandas examinar o cais. (…)
Estava encostado à porta da sala o Comissário da Polícia, o capitão Dias, a olhar para todos com uma preocupação que não lograva disfarçar! Apareceu nessa altura uma pequena com um grande ramo de flores para a Rainha. O capitão Dias deixou-a entrar não sem, ao que me pareceu, literalmente varar o ramo com os olhos.
Soube-se então que o comboio de SS. MM. tinha sofrido um pequeno descarrilamento e chegava com 40 minutos de atraso (…).
Eram mais de 5 horas quando se avistou ao longe o vapor que se aproximava. (…)Entretanto o vapor estava próximo do cais (…)
O Príncipe gritou de longe para o irmão:
- Sabes? Tivemos um descarrilamento.
El-Rei (…) tinha uma cara um pouco fatigada e parecia triste
A Rainha entrou na sala onde estávamos e recebeu o ramo das mãos da pequenita (…). El Rei, com a Rainha e os Príncipes, subiu para o landau, ordenando que o abrissem
Partiram
Eu fiquei à espera da minha carruagem (…) Também estava junto de nós João Franco, que por sua vez esperava a carruagem.

De repente o António Lavradio exclamou:
- Oh tia, cheira-me aqui a pólvora – e abalou a correr (…) salta para o estribo da [minha] carruagem e grita-me: - Mataram o Rei e o Príncipe (…)
Apareceu um tal Leitão (…) que me disse só de fugida
- Os corpos dos assassinos estão ali. Dizem que um é estrangeiro


Da Biografia de D. Carlos:

A tarde do dia 1 de Fevereiro em Lisboa foi de céu limpo, com sol (…). Por volta das quatro horas da tarde, esperava-se a chegada da família real à estação fluvial do Terreiro do Paço, vinda do Barreiro num dos barcos a vapor que levavam e traziam passageiros de Lisboa para a Estação de Caminhos de Ferro de Sul e Sueste (…). Pouco depois das 5, o vapor D. Luís atravessou finalmente o Tejo, com o rei, a rainha e o príncipe real (…). Quando [desembarcaram] já João Franco lá estava ao lado do Infante D. Manuel, do Infante D. Afonso e de outros ministros. O Rei teve, segundo a Rainha uma “grande conversa com Franco (…) Tudo Parecia desenrolar-se segundo o protocolo normal (…). Uma criança ofereceu um ramo de flores [à Rainha]. A família real subiu para uma carruagem descoberta. O Rei e a Rainha sentaram-se atrás, com a Rainha à direita do Rei e os dois filhos à frente, de costas para os cocheiros, ficando o príncipe real diante de D. Carlos.
A carruagem real terá saído da estação fluvial (…) entrou na praça do Terreiro do Paço isolada, precedida dos dois batedores do costume (…). A carruagem ia bastante devagar (…). Debaixo das arcadas dos ministérios e na plataforma central (…) alguma gente (…) via passar o rei. A carruagem dirigia-se para a rua do arsenal.
Deviam ser 5 horas e um quarto (…) quando se ouviu um tiro. O Infante (…) viu então na plataforma central da praça “um homem de barba preta, com um grande gibão, tirar uma carabina debaixo das abas da capa braço, avançar para o meio da rua, colocar-se atrás da carruagem, apontar na sua direcção e disparar” (…). Nesse momento, irrompeu “uma perfeita fuzilaria” [e] foi nessa altura em que um outro homem saiu debaixo das arcadas do Ministério da Fazenda, correu para a carruagem, dependurou-se no estribo e disparou pelo menos duas vezes sobre o rei com um revólver (…). D. Amélia brandia o ramo de flores e gritava “infames, infames”. O Príncipe real empunhava um revólver (…). De repente (…) o Infante notou que algo se passava com o irmão. D. Luís Filipe, até então de pé, caíra na carruagem “tombando para o lado direito”. D. Manuel viu que o Príncipe tinha “uma ferida enorme na face esquerda de onde o sangue jorrava como uma fonte” (…).
Tudo, aparentemente, durou cerca de 5 minutos, segundo o registo de ocorrências na estação de bombeiros do Terreiro do Paço. Os bombeiros de serviço registaram às 5h20m: “Ouvimos agora muitos tiros, talvez uns vinte”; e logo às 5h22m, o comunicado de um bombeiro que acabara de chegar e vira “o rei esvaindo-se em sangue dentro da carruagem. Deve estar morto”.
Na década de 1980 uma peritagem à carruagem e roupa de D. Carlos e de D. Luís Filipe realizada pelo Laboratório da Polícia Científica de Lisboa (…) detectou a acção de duas carabinas e de duas pistolas, confirmando o testemunho daqueles que viram vários indivíduos disparando sobre a carruagem real. Terá havido um momento em que o cocheiro perdeu o controlo dos cavalos e provavelmente deixado parar a carruagem sob o tiroteio. Os tiros de que ficaram marcas na carruagem indicam que o rei e o príncipe real foram alvejados repetidamente (…)

campas de Manuel Buiça e Alfredo da Costa


Das memórias da Marquesa de Rio Maior

Uma das coisas mais horríveis e vergonhosas destes dias negros, foi a romagem que se organizou ao Alto de S. João, às sepulturas dos regicidas (…). O préstito fora organizado pela Associação do Registo Civil, que fornecia as flores.


Considerações de Guerra Junqueiro numa carta a um amigo espanhol datada de 10 de Fevereiro de 1908.
Não mataram o rei, suicidou-se (…) O rei era um monstro maléfico, perturbador de 4 milhões de criaturas. (…) O Partido Republicano nem organizou nem aconselho o atentado. O atentado foi obra única de dois homens (…) Foi um atentado nacional (…). Lamento de olhos enxutos a execução do monarca. Mas se tivesse o dom de o ressuscitar, não o levantaria do túmulo. E diante do cadáver dos homicidas descubro-me com frémitos de terror, lágrimas de piedade (…) de admiração e de carinho. Mataram? É certo. Ferozes? Sem dúvida. Mas cruéis por amor, ferozes por bondade (…) Estes dois corpos plebeus, varados de balas, crivados de golpes, irradiam amor, afecto, descanso para a nação inteira. Há um rei no trono. Mas hoje, nesta hora de liberdade e de clemência, pode dizer-se que são eles os dois regentes do reino.


A propósito do Regicídio, António Reis, numa entrevista que deu recentemente ao jornal Correio da Manhã, teceu as seguintes afirmações:


Hoje está provado que as mortes foram obra de um pequeno grupo de carbonário, que actuou à revelia, através de uma loja especial chamada “Coruja”. De resto, a Maçonaria condenou o regicídio pela voz de Magalhães de Lima [Grão Mestre de então]. Nem à Maçonaria, nem ao Partido Republicano interessava um acto que poderia reunir a classe política e atrasar a queda da Monarquia (…)


Nota: Para a redacção dos textos sobre o Regicídio, foram consultadas as seguintes fontes:
- BNP (2008), 1908, Do Regicídio à ascensão do Republicanismo, online [carta de Guerra Junqueiro]
- COLAÇO, Berta da Gonta (2005), Memórias da Marquesa de Rio Maior, edição Parceria António Maria Pereira, pág. 235 a 238 e 245
- CORROMEU, Francisco (2008), Do 28 de Janeiro de 1908 ao 5 de Outubro de 1910, conferência realizada na Biblioteca do Museu Republica e Resistência, Lisboa, 28 de Janeiro de 2008, online
- RAMOS, Rui (2006), D. Carlos, edição do Círculo de Leitores, pág. 315 a 317
- Site do GOL, www.gremiolusitano.eu, a 30 de Janeiro de 2010

Regicídio - 1 de Fevereiro de 1908

A crise profunda em que o sistema monárquico estava mergulhado – suspensão de grande parte do articulado da Carta Constitucional de 1826, o encerramento do Parlamento em Abril de 1907, o adiamento na marcação de novas eleições, o afastamento da área do poder dos dois principais partidos [Regenerador e Progressista], o Governo exercido em Ditadura [Ditadura de João Franco], as restrições à liberdade de imprensa – levaram a que o Directório do Partido Republicano evoluísse na sua linha política, passando a defender o movimento revolucionário como forma de deposição da Monarquia.
Marcado para o dia 17 de Janeiro, o movimento revolucionário contaria com o enquadramento militar da Marinha, já que muitos dos militares que aqui prestavam serviço tinham ligações aos Republicanos, bem como com os civis da Carbonária recentemente reorganizada. O adiamento da revolta para o dia 28 de Janeiro provocou tumultos em Lisboa e no Porto, como o rebentamento de petardos nas ruas de Santo António à Estrela e do Carrião [18 de Janeiro], e a prisão, entre outros, de António José de Almeida, João Chagas, Magalhães de Lima, Luz de Almeida, França Borges. O plano passou então pela libertação dos líderes republicanos, pela detenção de João Franco e, aproveitando o facto da família real se encontrar em Vila Viçosa, a ocupação dos principais quartéis de Lisboa para o que havia o apoio de muitos oficiais. O comando das operações estaria a cargo de Cândido dos Reis Machado dos Santos, Marinha de Campos e Soares Andrea. Porém, a conspiração foi descoberta e muitos dos seus implicados detidos, entre os quais Afonso Costa.
A revolução não se fizera e, pior do que isso, nomes grandes do Partido Republicano, da Maçonaria e da Carbonária estavam presos. A situação dos detidos tornar-se-ia ainda mais difícil com entrada em vigor do projecto de decreto de João Franco que deportava para Timor os republicanos presos.
O carbonário Alfredo Luís da Costa, inconformado com o sentido tomado pelos acontecimentos, em conversa com Marinha da Costa, considerou que a melhor maneira de lidar com o problema seria a liquidação de João Franco. Desta constatação deu conhecimento a Manuel Buíça e a Aquilino Ribeiro. Porém, era quase impossível chegar a João Franco que, por esses dias, andava bem guardado, trocando as voltas com muita facilidade. Como tinha várias residências, não se sabia em qual dormia. Mas uma coisa seria certa: ia esperar o rei à estação de barcos do Terreiro do Paço quando este regressasse de Vila Viçosa.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010


Nas vésperas da insurreição do 31 de Janeiro, enquanto os jornais de Lisboa clamavam ainda contra o Ultimatum, oficiais do exército eram inusitadamente deslocados de unidade. No dia 27, o alferes Simões de Almeida, a prestar serviço no Batalhão de Caçadores 9 aquartelado no Porto, foi transferido por ordem do Ministro da Guerra para o Regimento de Infantaria 24, sedeado em Pinhel. Os jornais da cidade Invicta publicaram de imediato a notícia, invectivando contra a violência das autoridades militares que se abatia fundamentalmente sobre os oficiais de baixa patente.
A insatisfação que grassava no meio militar, mais concretamente entre os sargentos, deu origem a reuniões secretas, como aquela que decorreu numa casa da rua do Laranjal presidida pelo alferes Simões Trindade que, para além de ter a confiança absoluta dos sargentos, com eles cooperava no movimento da revolta. Os militares presentes estavam indignados porque o governo não queria respeitar a legislação vigente sobre as promoções na carreira. Assim, para além de subscreverem a petição enviada de Lisboa, aprovaram uma minuta de um documento que era um verdadeiro ultimato ao governo, ameaçando com a sedição caso a lei não fosse respeitada, recorrendo até ao uso das armas.
Na reunião da rua do Laranjal compareceu também o sargento-ajudante de Infantaria 8, Artur Ferreira de Castro, que obtendo uma cópia do documento, a entregou aos seus superiores que logo a fizeram chegar ao ministério da tutela. O futuro dos conspiradores ficara assim definido e as transferências quase imediatas dos sargentos comprometidos com o movimento aceleraram a insurreição. Santos Cardoso e Alves da Veiga, conscientes do desassossego dos sargentos e convencidos de que não conseguiriam por mais tempo adiar a eclosão da revolta, trataram de, no mais curto espaço de tempo, confirmar os apoios que viriam de fora do Porto.
Assim, a 30 de Janeiro, aqueles dois republicanos decidiram entregar a direcção da revolução ao General reformado de Engenharia, Correia da Silva, que aceitou o encargo com a condição de que à frente das tropas revoltosas estivessem oficiais. Nesse mesmo dia, dois encontros foram realizados. Um na rua do Malmerendas, em casa de uns parentes do General, onde estiveram presentes os oficias que tinham aderido à causa, bem como civis que dariam corpo ao projecto revolucionário. Na rua da Alegria, reuniam-se setenta sargentos para decidirem como lidar com o velho general, uma vez que receavam que este fosse a favor do adiamento da revolta. Da rua da Alegria seguiram para a rua do Malmerendas, sendo recebidos pelo General Correia da Silva. Juntos concordaram que o movimento rebentaria de madrugada. Como faltasse um plano revolucionário, nova reunião foi marcada, desta vez para as 10 horas da noite, na rua de Santa Catarina. Apesar de vários oficiais terem sido convidados, apenas compareceram o velho General Correia da Silva, Alves da Veiga, Santos Cardoso, o Capitão Leitão, alguns sargentos, um alferes da guarda-fiscal e diversos civis. Foi então que o General e o Capitão Leitão discutiram o plano revolucionário. Enquanto o General entendia que as tropas deveriam concentrar-se na Praça da Batalha para tomarem o quartel-general, o governo civil e o “telégrafo”, aí localizados, o Capitão Leitão achava que a concentração dos militares deveria fazer-se no Campo de Santo Ovídio, argumentando com o facto de os revolucionários serem obrigados a vencer uma possível resposta negativa da parte do quartel do Regimento de Infantaria 18. Santos Cardoso, pondo-se ao lado do Capitão Leitão, fez vingar a ideia da concentração das tropas em Santo Ovídio. Combinaram, ainda, que a detenção das autoridades civis seria realizada pelos civis presentes. O General Correia da Silva só seria chamado a Santo Ovídio se não aparecessem oficiais superiores.
Finda a reunião, Alves da Veiga e outros companheiros dirigiram-se para a loja maçónica Grémio Independência, que passaria a funcionar como “quartel-general” da revolução. Na cidade circulava já a notícia de que a insurreição estaria para breve e, num reservado do Café Suisso, um grupo de republicanos preparava o manifesto: Aos camaradas do Norte e Sul de Portugal; aos cidadãos do Porto; aos cidadãos portugueses! que anunciava a substituição da Monarquia pela República.
Porém, enquanto os conspiradores ultimavam a preparação da revolta, as autoridades civis e militares portuenses preparavam o contra golpe, depois do governador civil ter sido alertado para a insurreição que se preparava. Foi então que Joaquim Taibner de Morais, o então Governador Civil do Porto, reuniu no quartel do Carmo com o comandante da Guarda Municipal. Juntos decidiram que, sem grande aparato, aquela força pública vigiaria os quartéis militares suspeitos. O Governador Civil e Comandante da Guarda Municipal foram parlamentar com o comandante interino do Regimento de Infantaria 18 e este ordenou aos seus oficiais que exercessem a maior vigilância possível sobre as suas companhias. Porém, aos comandantes do Regimento Infantaria 10 e do Batalhão de Caçadores 9 nada foi transmitido.
Terminada a reunião na rua de Santa Catarina, os sargentos conspiradores dirigiram-se aos seus quartéis para tomarem as providências necessárias à saída das tropas. O primeiro a dar sinal foi o Batalhão de Caçadores 9 que, comandado pelos sargentos, subiu a rua de São Bento em direcção à Cadeia da Relação onde estacionou. Aqui, os sargentos pediram ao Alferes Malheiro, nessa hora em serviço de guarda àquela cadeia, para assumir a chefia do Batalhão. Já sob o comando do Alferes, os Caçadores 9 dirigiram-se para Santo Ovídio onde se lhes reuniria a Infantaria 10 liderada pelo Capitão Leitão.
No Campo de Santo Ovídio, onde se localizava o quartel de Infantaria 18, os dois regimentos formaram de modo a circundarem o quartel. Soldados e populares, que entretanto se foram juntando, davam vivas à República e àquele regimento de infantaria incitando-o a aderir à rebelião. Do quartel de Infantaria 18 saiu o destacamento de Cavalaria 6, aí alojado, que se juntou às tropas rebeldes, ao mesmo tempo que convergia para Santo Ovídio a Guarda-fiscal. Pelas quatro da manhã quase todas as forças rebeldes estavam reunidas, aguardando só pelos soldados de Infantaria 8, para se iniciar a marcha contra o inimigo monárquico representado, no Porto, pela Guarda Municipal.
Porém, no quartel do Regimento de Infantaria 18, para o lado dos rebeldes as coisas não estavam fáceis. Um dos sargentos deste regimento, que assistira à reunião na rua de Santa Catarina, recebera voz de prisão ao regressar ao quartel, tendo contudo conseguido passar a informação. Por seu lado, o comandante do regimento tentava dissuadir de aderirem à revolta as tropas já perfiladas na parada, procurando também informar-se sobre as forças estacionadas no Campo de Santo Ovídio. Foi então que os sargentos do regimento comprometidos com a revolta forçaram a saída de quase duas companhias.
Estavam reunidas as tropas possíveis, a que se juntava um número cada vez maior de populares aclamando a revolução. A Guarda Municipal, que vigiara silenciosa, retirou-se para a Praça da Batalha para junto do quartel-general e do edifício dos correios.
Foi então que populares, juntamente com soldados da Infantaria 10 e Caçadores 9, entraram em acção ao pretenderem forçar a porta do quartel. O actor Miguel Verdial, um dos conspiradores que se encontrava presente, procurou segurar a raiva dos invasores, oferecendo-se como mediador entre os revolucionários e o comandante do regimento. O quartel de Infantaria 18 era habitado por muitas famílias. Com Miguel Verdial entraram no quartel Santos Cardoso, o Capitão Leitão e mais uns tantos civis. Santos Cardoso invectivava o Coronel Lencastre a aderir à República e o Capitão Leitão pedia-lhe que acompanhasse os revoltosos. Apesar do Coronel nunca se comprometer, o Capitão Leitão comunicava às forças sublevadas a adesão do Regimento de Infantaria 18 e o Campo de Santo Ovídio era mais uma vez observado por homens da Guarda Municipal.
Era já madrugada quando as forças revolucionárias, ao som da Portuguesa, se dirigiram para a Praça de D. Pedro, onde deveriam ocupar os Paços do Concelho, proclamando a República. Na rua do Almada, as janelas abriram-se e fazendo eco com o povo nas ruas lançavam gritos de apoio à República. Pouco passava das 6 da manhã quando se abriram as janelas do edifício camarário, assomando a uma delas Santos Cardoso dando vivas à República, aos exército e aos revoltosos, ao mesmo tempo que agitava a bandeira do Centro Democrático Federal 15 de Novembro. Noutra janela, Alves da Veiga proferiu o discurso da aclamação da República e Miguel Verdial anunciou a constituição do Governo Provisório do qual constavam os nomes de Rodrigues de Freitas, Joaquim Bernardo Soares (Juiz desembargador), José Maria Correia da Silva (General), Joaquim Azevedo Albuquerque (Professor da Escola Politécnica do Porto), José Ventura dos Santos Reis (médico), Licínio Pinto Leite (banqueiro), António Joaquim de Morais Caldas (professor) e Alves da Veiga. Uma multidão em delírio ocupava a Praça de D. Pedro, ovacionava o futuro Governo Provisório, dava “vivas à República”.
Porém, o Regimento de Infantaria 18 não se juntara às forças revoltosas. O Capitão Leitão apercebeu-se então de que os soldados e os sargentos insurrectos tinham sido traídos. Só três oficiais marcaram presença. Os soldados, por seu turno, queriam acção e como a polícia municipal tinha ocupado a Praça da Batalha, vozes dispersas aconselhavam a que a Praça fosse ocupada.


Na Praça de D. Pedro, um popular abeirou-se do Capitão Leitão para lhe comunicar que, na Praça da Batalha, a Guarda Municipal estacionara vigilante, tornando-se necessário escorraçá-la dali para ser possível a ocupação do quartel-general e dos correios. Um outro popular aconselhou-o a fraccionar as forças do seu comando. Porém o Capitão, acreditando numa adesão dos Guarda Municipais, mandou que as tropas subissem a rua de Santo António em direcção à Praça da Batalha, onde pensava poder dialogar com o Subchefe do Estado Maior, Fernando de Magalhães, pessoa grata aos revolucionários.
Enquanto as forças rebeldes subiam a Rua de Santo António, acompanhadas por uma imensa multidão quase em festa, a Guarda Municipal formava no cimo da rua, nas escadarias da Igreja de Santo Ildefonso, com as armas apontadas para a coluna militar. Apercebendo-se do facto, o Capitão Leitão, à frente dos seus homens, levantou os braços como querendo dizer que a acção dos sublevados era pacífica, mas de nada lhe valeu a simbologia do gesto. A Guarda Municipal descarregou sobre a multidão, lançando o pânico entre os militares e entre populares que se aglomeravam na rua de Santo António. A confusão foi enorme. A coluna militar desfez-se e soldados misturaram-se com civis. Pouco tempo depois, a rua de Santo António estava juncada de corpos inanimados e dos despojos das vítimas. O Capitão Leitão, ferido na cabeça, procurou o cessar-fogo. Não conseguiu. A Guarda Municipal continuava a metralhar. Enquanto tiveram munições, soldados da Guarda-fiscal e dos Caçadores 9 conseguiram ripostar. A Infantaria 10, que se encontrava no fundo da rua de Santo António quando começara a tiroteio, recuara até aos Paços do Concelho, onde se lhe juntaram os outros militares. O Capitão Leitão, com as forças reagrupadas na Câmara Municipal, tentou uma última ofensiva, mas era já tarde pois as forças fiéis à Monarquia atacaram a tiro os revolucionários encurralados, acabando por arrombar a porta do edifício camarário. Derrotado, o Capitão Leitão abandonou os Paços do Concelho.
A República durara duas horas.
Oficialmente a insurreição do 31 de Janeiro provocou dez mortos e um significativo número de feridos entre militares e civis, homens e mulheres. Alguns feridos vieram a falecer posteriormente. A 1 de Fevereiro, o jornal O Primeiro de Janeiro publicava uma lista dos mortos bem como dos sinistrados assistidos nos vários hospitais portuense.
Logo na tarde do dia 31 de Janeiro, o Governador Civil do Porto fez publicar um edital suprimindo todas as liberdades individuais e o Governo Monárquico proibiu a circulação dos jornais republicanos, mais concretamente daqueles que estavam solidários com os revolucionários.
A 2 de Fevereiro, o Governo publicou vários decretos entre os quais aquele que entregava à competência dos tribunais militares o julgamento do crime de rebelião, cometido pelos revolucionários do 31 de Janeiro. Porém, temendo uma reacção popular, ordenou que os conselhos de guerra se realizassem a bordo de navios de guerra fundeados no porto de Leixões. Os detidos ficaram alojados num velho pontão incapaz de navegar e os tribunais militares funcionaram no barco de transporte Índia, na corveta Bartolomeu Dias e no vapor da Mala Real Moçambique.
Foram julgados no Moçambique, entre outras personalidades republicanas, o jornalista João Chagas, Santos Cardoso, Capitão Leitão, tenente Coelho, Miguel Verdial, Aurélio da Paz dos Reis. O tribunal militar para as praças de infantaria 18 e 10 reuniu na corveta Bartolomeu Dias e na Índia ouviram a sentença final o Alferes Trindade, a que mais tarde se juntou o Tenente Coelho transferido do Moçambique, e os soldados da Guarda-fiscal. Alves da Veiga, Sampaio Bruno e Basílio Teles conseguiram fugir para o exílio.
A decisão dos julgamentos militares estava definida à partida e nenhum dos detidos desconhecia que, por ordens superiores, independentemente do que fosse apurado, seria condenado. Terminados os julgamentos, os conselhos de guerra condenaram à pena de prisão maior celular ou, em alternativa, ao degredo para as colónias africanas, mais concretamente Angola, João Chagas, Santos Cardoso, Miguel Verdial, Capitão Leitão, para só apontar as personalidades mais conhecidas. O Tenente Coelho foi condenado a 5 anos de degredo e os restantes implicados sofreram penas variáveis, como deportação militar, degredo ou prisão.
Os regimentos de Caçadores 9 e de Infantaria 10 não ficaram incólumes. O Governo pura e simplesmente extingui-os.

Nota:
a produção dos textos sobre o 31 de Janeiro de 1891 foi possível graças à consulta da obra A revolução Portuguesa: o 31 de Janeiro, de Jorge D’Abreu, publicada pela Biblioteca Histórica (Popular e Ilustrada), em 1912. Esta obra está disponível online.